sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Um homem...

Em um dos primeiros dias de outubro, em São Paulo, antes do entardecer, um homem viajava a pé. Tinha a aparência suja, muito encardida. Seria difícil encontrar alguém com aspecto mais estranho e triste, com seus olhos fundos e sem vida. Era cabeludo, de pele marcada por ferimentos infeccionados por todo o corpo. Parecia ter de 28 a 33 anos. Sua camisa era de linho, meio amarelada por causa do suor e da sujeira. Sua calça era de moletom bem rala, na cor verde, porém manchada. Nas costas, trazia uma bolsa improvisada com um saco, onde deveria ter um lençol para dormir e, talvez, algum objeto que tilindrava quando o homem andava, fazendo todos da rua desviarem o olhar para observá-lo. Trazia na mão metade de um terço, branco e dourado, provavelmente para ter uma fuga nos seus dias de agonia. O suor e o pó da estrada tornavam a sua aparência cadavérica, repugnante, quase que como um zumbi, que andava sujo e sem rumo com a esperança de, um dia, se tornar um “humano”.
Perambulava pelas ruas da imensa cidade, perdido. Seu olhar voava ao longe, no infinito, como se buscasse alguma coisa que não pudesse enxergar. Sentia medo, e vira e mexe encontrava-se em algum canto chorando, sozinho, suas mágoas da vida. Entre soluços e suspiros ele dava passos largos, e sempre um passo a mais, como se estivesse fugindo do passado indesejável que o perseguia. Sem olhar para os lados, sem se preocupar com o inevitável ele, lamentavelmente, seguia seu caminho rumo ao mundo desconhecido. As pessoas o temiam, apertavam fortemente as bolsas douradas e as malas de couro contra os braços; abaixavam os olhos ranzinzos, e, às vezes, olhavam nos olhos do homem que eram como janelas abertas para imensidão de desavenças dentro de si.
Todos os dias o homem observava o anoitecer, olhava aquele pôr-do-sol que cintilava nas nuvens. Pinceladas de vermelho e amarelo davam um tom alaranjado como fogo e ao mesmo tempo rosado como o amor, enquanto lá no fundo a escuridão vinha chegando, engolindo para as trevas, com suas cores negras e obscuras, qualquer coisa que estivesse sob ela. E ele sabia, sabia que chegara a hora que temia com todas as minúsculas células de seu corpo. Seu coração pulava em saltos, disparando o desespero, seus olhos diminuíam parecendo duas jabuticabas pequeninas. No fundo uma criança apavorada, com medo de seus próprios sonhos, seus próprios pesadelos, receando até ele mesmo. Adormecia. O lençol dilacerado que exalava mau cheiro, envolvia-lhe o corpo que tremia a cada brisa gélida; brisa que parecia facas pontiagudas penetrando leve e firmemente suas entranhas.
Ele sabia que seu destino estava perto, seu propósito divino estava tão perto que quase podia sentir seu cheiro. Caminhava e caminhava, aonde quer que estivesse. Seus pés formavam calos que transbordavam sangue de amargura. Perguntava-se há quanto tempo andava olhando sempre para o horizonte, encarando algo que desconhecia.
Um dia uma criança de rosto rosado, de cabelos finos e castanhos que adejavam ao ar, de olhos angelicais, viu-o chorar. Trouxe-lhe um pequeno pedaço de chocolate que estava comendo e ofereceu-o ao homem. Depois lhe deu um abraço apertado e quente e disse-lhe “Deus lhe abençoe moço”. Tudo vai dar certo, é só confiar”.E com um belo sorriso, daqueles radiantes, virou-se de costas e foi embora parecendo um anjo iluminado com os raios lançados do Sol brilhante. O homem levou a boca o pequeno chocolate saboreando-o devagar, sentindo o açúcar no sangue, aquela sensação de alegria. Uma calmaria rodopiava em seu corpo, e as palavras do seu anjo na mente vazia, davam-lhe força.
Chegava o anoitecer novamente, mas dessa vez ele não o temia, ele apenas queria observar as estrelas pequeninas que cintilavam no céu. Queria apreciar o quanto o mundo é cheio de maravilhas. Fitava os pássaros livres e encantados, o céu escuro mais radiante, as estrelas que reluziam quase que piscando, a lua enorme que lhe envolvia os olhos, o chacoalhar das árvores e lá longe o cheiro delicioso de um chocolate quente que inundava-lhe as narinas.
Ao amanhecer o homem não se encontrava mais ali, pelo menos não de espírito. Havia largado seu corpo em um chão qualquer, pois descobrira-se preparado para deixar o sofrimento e exaustão; havia aprendido diversas coisas que poucos seres humanos tinham o prazer de aprender; havia cumprido sua missão na terra e chegara a hora de encontrar o seu destino.
Essa é a história de um homem que andou por ladrilhas e caminhos severos por toda a sua vida, mas que viu maravilhas que ninguém nunca conseguiu enxergar. O homem que caminhava rumo a um destino oculto, um destino que não podia ver nem sentir, mas que sabia que o reconfortaria seja lá o que fosse. Um anjo, um destino, e uma busca pelo que ele poderia não saber, mas nós sabemos... A felicidade!


Imagem: Desconheço o autor

6 comentários:

Claudia Perotti disse...

Sua história teve um fim de arrepiar. Amei!

Estou muito orgulhosa de saber que voltou a escrever.

Beijinhosssssssssssssss

Cackau Loureiro disse...

Adorei o texto!

Adorei os detalhes,parece que ví o homem passar por mim!

=)

aceita um café com creme?

seja bem vinda!

Anônimo disse...

Que belo texto! Posso ver que o dom eh genetico! Espero ler mais de vc por aqui!

Grande beijo!

Stan

jalves disse...

Olhamos os descalços pés presos aos movimentos do corpo cansados de tanto esperar.

Abraço deste lado do mar!

Alessandra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alessandra disse...

Estou boquiaberta!!
Caramba, você escreve super bem demais! Seu texto é cheio de emoção e esperança!